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O resíduo amargo do compromisso com a realidade - 'Euphoria' Season 3 Review (Portuguese Version)

  • Writer: Marcos S. Rutherford
    Marcos S. Rutherford
  • 2 days ago
  • 11 min read
Woman sitting alone in empty wooden theater seats, gazing upward thoughtfully.
Zendaya as Rue Bennett in 'Euphoria' (2019 - 2026)

Euphoria Season Review English Version coming by Thursday


Desde que entrei de cabeça no mundo das séries, sempre fui aquela pessoa que ia na recomendação de alguém, e daí se formava um grupo de pessoas que acompanhavam aquele programa de TV e surgiam as discussões. Lá atrás, ainda em 2019, eu fiz a escolha de assistir sozinho, sem receber nenhuma recomendação ou ler nada a respeito, a série cujo comercial ficava passando na minha TV enquanto eu lidava com o final terrível de Game of Thrones.


Eu dei essa chance e fui surpreendido com a série mais interessante e divertida que eu tinha assistido até então. Além dos tons de roxo que me chamavam a atenção, a direção da série foi um diferencial fenomenal para mim que, naquele momento, estava começando a ser um entusiasta de cinema em sua forma mais técnica. O roteiro abordava de forma escrachada temas com os quais eu conseguia me identificar estando no ensino médio — como relacionamentos, internet, "primeira vez", pluralidade de narrativas, especialmente no meio LGBTQIA+ com a Jules (Hunter Schafer), cuja vivência não era a minha realidade, mas que eu pude entender e me aprofundar —, e, infelizmente, o abuso de drogas.


No Brasil, durante a transição do ensino fundamental para o ensino médio, a conscientização sobre o uso de drogas é intensificada — e isso acontece porque, não importa o quanto tentemos fechar os olhos, não é segredo para ninguém que a vida adulta pode sim te colocar em contato com tais substâncias. Eu, por outro lado, gostava de saber que estava consumindo algo que falava sobre tópicos que antes eu via apenas na TV, mas que de uma forma ou outra estavam começando a fazer parte da minha vida. Sentia que estava abraçando uma empatia por outras realidades que não a minha, e isso, em Euphoria, era feito de forma magnífica com maquiagens cheias de glitter que, apesar de toda a sua beleza, não romantizavam a narrativa caótica e problemática da sua protagonista Rue Bennett (Zendaya).


Curly-haired woman sits in a dusty SUV, looking out the open window against a clear blue sky, serious and focused.
Zendaya as Rue Bennet in 'Euphoria' (2019 - 2026)

A terceira temporada de Euphoria começa com uma sátira à essência do que é acompanhar a trajetória da Rue: estamos em um lugar completamente sem cabimento, numa situação que sabe lá Deus como ela foi parar. É engraçado, mas trágico. Nesse primeiro episódio, acompanhamos o que aconteceu com a Rue nos últimos anos e como as escolhas dela na segunda temporada — enquanto ela ainda estava no ensino médio — definiram a situação em que ela se encontra agora, na vida adulta.


Honestamente, gostei do episódio e da forma como ele foi construído. Consegui me divertir, teorizar novos rumos e me apegar à história que estava sendo apresentada ali — assim como todo início de temporada deve ser. Mas o que senti aqui foi que não estávamos começando uma nova temporada de uma série que eu já acompanhava, e sim uma série nova com um universo compartilhado com algo que eu já conhecia.


Direção de imagem, maquiagem, figurino e roteiro trabalham em conjunto para construir a identidade de um projeto audiovisual, e eu gosto muito de quando isso é revisitado e repensado de uma nova forma que faça sentido para o desenvolvimento de uma trama — o que aconteceu aqui em certo nível. Mudar as cores principais da série e o cenário em que ela é ambientada — e cabe reforçar aqui que não estou falando exatamente de um espaço físico — foi um acerto muito interessante, a meu ver. Apesar do apego nostálgico e de certa forma até carinhoso com o roxo, o glitter e as maquiagens das duas primeiras temporadas, devo reconhecer que essa repaginada visual foi positiva, o que não quer dizer que não houve erros também.


Man in white outfit sits on a wooden chair with a tan coat over his shoulder against a brown textured backdrop, calmly posing.
Labrinth for Sony Music

A saída do Labrinth da trilha sonora não passa despercebida, e isso é, de longe, o maior erro da série. No episódio do casamento, temos um conflito de interesses muito forte a ser discutido, e a simples presença de um elemento carrega todo esse drama e a ansiedade pelo desfecho. Acontece que a trilha sonora mata, sem dó nem piedade, o que não só poderia como deveria ser o ponto alto do episódio. Não estou aqui falando de gostos e expectativas que não foram atendidas, mas sim de uma narrativa construída em torno da traição de uma amizade que define onde estamos agora — e, ao invés de termos um momento apoteótico de tensão, a trilha sonora segue o caminho completamente oposto, e repentinamente você nem lembra mais o que está assistindo.


Quando você muda tantos aspectos que caracterizam seu projeto, é importante manter pelo menos uma coisa além do elenco para indicar ao público que ainda estamos contando a mesma história — que o que você começou a contar lá em 2019 ainda não teve um desfecho. Além de um roteiro que é sim mais ousado no que diz respeito a pontos e ganchos conectivos, temos também uma audiência afetada pelo roteiro mastigado que a indústria vem entregando e que os algoritmos de redes sociais ajudam a promover. Não é mais sobre fazer o público se sentir conectado à sua história, é sobre fazê-lo se desconectar para prestar atenção no que você tem a dizer em tempo recorde. Isso é triste — uma lástima que pode sim limitar alguns roteiros e projetos incríveis, mas que definitivamente não é o caso aqui.


Collage of Euphoria characters in neon scenes with HBO Max branding, title, and Season 3 April 2026 promo text.
'Euphoria' from Season 1 to Season 3 comparison (Reproduced: Reddit - Click to access original content)

Apesar de um roteiro cativante em si, há uma certa fraqueza em manter a narrativa viva para o episódio seguinte — em criar uma linearidade que te faça abraçar a história com uma expectativa de onde se quer chegar, e não apenas algo que você religiosamente senta no sofá todo domingo para assistir. As cenas do casamento da Cassie (Sydney Sweeney) com o Nate (Jacob Elordi) dizem muito sobre isso. São acontecimentos do passado que não afetam um personagem com a presença do outro da maneira que deveriam — e, novamente, não é sobre uma expectativa minha, mas sim sobre o que o roteiro nos contou desses personagens. São nomes que a gente já conhece e sabe o que esperar, mas que aqui estão completamente descaracterizados.


Lidar com a frustração de ver um personagem que você conhece fazer coisas que o roteiro te ensinou que ele nunca faria é um desafio e tanto, e se você tem um apego maior com esse personagem, a situação é pior ainda. Desconsiderando o completo apagamento da Kat (Barbie Ferreira), a redução brusca do tempo de tela da Jules foi algo que me doeu muito. Além do apreço pela personagem, parte do desenvolvimento da protagonista estava ali, e ver isso reduzido a praticamente nada contribuiu muito para o senso de desconexão com a narrativa apresentada até aqui. Outro ponto que me chama a atenção de forma negativa nesse trecho da temporada é a sexualização em cena, especialmente da Cassie e da Kitty (Anna Van Patten), que protagonizou uma das cenas mais perturbadoras e desconfortáveis que já vi — tudo isso simplesmente por ser desnecessária.


Giant woman in leopard-print dress stands over a ruined city at dusk, with lit skyscrapers and ONE WILSHIRE visible in back.
Sydney Sweeney as Cassie Howard in 'Euphoria' (2019 - 2026)

Eu não me importo nem sou cético conservador quando se trata de cenas de sexo e nudez explícita, desde que haja um propósito e um acréscimo considerável à trama que está sendo desenvolvida. Nessa cena em específico, acredito que havia formas de construir o mesmo desconforto sem gerar um estímulo visual apelativo que me pareceu estar ali apenas para chocar e gritar com a audiência algo como: "Ei, olha o que estou falando".


Abraço a importância de se discutir a prostituição e o abuso sofrido por profissionais do sexo sem tabus ou rodeios que possam acabar na romantização — mas é ligeiramente intrigante como isso se desenvolve aqui, ainda mais estando associado ao nome de Sam Levinson e ao seu passado não tão distante com The Idol.


É uma cena carregada de fetiche? Sim. É desconfortável a ponto de ser cômica? Com toda a certeza — mas se em alguma coisa esse roteiro acertou ao brincar com nudez explícita, foi na abertura do quinto episódio. Além de resgatar o passado com técnicas narrativas da primeira temporada, o paralelo entre o que estávamos vendo e o que estava acontecendo na "realidade" do universo da série, a sequência de cenas que leva à Cassie Gigante é repleta de alegorias que brincam e ironizam o que a personagem está vivendo e o caminho que está escolhendo trilhar, além de satirizar fetiches que, apesar de bizarros, submetem a personagem a realizá-los por um bem maior que a engrandece enquanto minimiza quem os solicita. Isso tudo é feito com referências clássicas que, mesmo para quem não as captou de primeira, ficam evidentes e sinalizam uma evolução do que já havíamos visto até aqui em termos técnicos e de roteiro. Infelizmente, o desenrolar do episódio não segue o mesmo caminho, e voltamos à dificuldade em manter a narrativa viva para o próximo — desta vez com um detalhe a mais: já era o terceiro capítulo seguindo a mesma estrutura de acontecimentos de forma padronizada, apenas alterando os fatores e envolvidos.


Man in teal pajamas lies on a patterned bed, clutching a belt, looking pensive in a warm wood-paneled bedroom.
Ca'Ron Jaden Coleman as Young Álamo in 'Euphoria' (2019 - 2026)

Nessa altura do campeonato, eu estava lidando com a temporada como uma série à parte, até que fui surpreendido com um dos melhores episódios — não só da temporada, mas talvez da série —, o que me fez questionar por que havíamos perdido tanto tempo e potencial nos momentos anteriores.


O resgate do background dos personagens veio como um presente fora de época para uma audiência que eu acompanhei reclamar de descolamento do universo da série de 2019. Aqui senti, pela primeira vez em um episódio inteiro, que estava assistindo Euphoria. Aqui consegui abraçar todas as alterações, mudanças e possíveis evoluções de uma série que agora estava tendo uma continuação.


Entender o passado do Alamo (Adewale Akinnuoye-Agbaje) e do Ali (Colman Domingo) era um indicativo muito forte de que algo grande viria por aí — e que estaria nitidamente ligado ao final dessa temporada que, até aquele momento, não se sabia se teria uma continuação ou se estávamos diante do encerramento completo desse universo.


Desde a desconfiança do Alamo com medo de ser traído por mulheres após presenciar a traição da sua mãe na infância, até a tradição fúnebre do Ali de anotar o nome das pessoas que perdera ao longo da vida em um caderno, tudo nessa parte da temporada soava como algo novo e empolgante. Aqui a história caminhava para algum lugar, e dava para sentir isso — aquela sede de ver o próximo capítulo e entender um próximo passo que, finalmente, era possível especular. Depois de episódios girando em círculos, a temporada começou a ganhar forma com uma série de acontecimentos cativantes, muito bem abordados e construídos, que me fizeram levantar do sofá assistindo às cenas.


A man in a black cap writes at a desk in a dim, warm-lit room with framed photos, a lamp, and patterned curtains.
Colman Domingo as Ali in 'Euphoria' (2019 - 2026)

A série de acontecimentos que leva Nate a estar soterrado vivo em um caixão dentro da sua própria construção foi bem executada, sem repetir o plot quase padrão da temporada até aqui — a perseguição de gato e rato cuja consequência é sempre um dedo a menos. Nesse ponto, você abraçava a ideia do que precisava ser feito e torcia para as personagens chegarem lá, porque conseguia visualizar onde era esse lugar, qual ponto narrativo isso ia atingir e como estava sendo construído. Não há o que reclamar nesse desenvolvimento — apenas apreciar e abraçar como um bom, mas não excelente, material que tem como único ponto negativo não trazer consigo a carga característica das duas temporadas anteriores.


Sim, achei a morte de Nate Jacobs hilária e improvável, mas foi exatamente o tipo de desfecho que eu sequer poderia imaginar — e que cumpre muito bem com o que Euphoria se comprometia a fazer lá no começo. É uma morte coerente, levemente temperada com comicidade, e um belo gancho para o que esperar a seguir.


Black-and-white photo of a smiling man lying on pavement beside a cooler and fishing rods, with other people standing nearby.
Jacob Elordi as Nate Jacobs in set for Episode 7 (Reproduced: Instagram/@Euphoria)

Até o final da exibição do episódio ainda era uma grande incógnita se estávamos presenciando o final de uma temporada ou da série, mas aqui continuamos exatamente de onde paramos no anterior e já somos surpreendidos com uma perseguição eufórica que criou um ânimo impecável para seguir em frente. Apesar de não saber como lidar com esse episódio nos quesitos citados acima, foi um capítulo muito bem direcionado às suas conclusões — e não conclusões. Tínhamos o desfecho do arco desenvolvido desde o terceiro episódio, o da Rue ajudando a polícia; o fim da Faye (Chloe Cherry) e do Wayne (Toby Wallace), que fica formidavelmente em aberto na medida certa; e até um pouco de conforto para nossa protagonista, que foi arrastada viva laçada pelos pés. Tudo muito calmo — mas ainda não havia passado nem metade do episódio, e a partir daí começamos a presenciar as consequências dos pequenos atos e falas de canto de boca.


A morte da Rue era óbvia — não desde a primeira temporada que, complementada pelos episódios especiais e pela segunda, deu um rastro de esperança para a personagem, mas sim desde o episódio que conta o passado de Ali, que deixou claro que cedo ou mais tarde ele colocaria o nome dela ali. Não acho que uma boa narrativa seja construída ocultando seus próximos passos, focada em surpreender sua audiência, mas sim os construindo de forma majestosa — e inegavelmente isso foi feito aqui. O episódio final entrega uma série de expectativas quebradas sobre como a personagem chegaria a esse fim, seja escapando de ter a cabeça arrancada por um taco de polo ou conseguindo sair de dentro da toca do inimigo. Com um gancho extremamente coeso e fechado de forma segura e ambiciosa no meio do episódio, Zendaya se despede de Rue com a personagem sendo enganada e induzida a uma overdose de fentanil por Alamo, que não deixou a conversa fiada de Maddy (Alexa Demie) passar despercebida.


Young woman in a retro bedroom hugs a loaf of bread on a bed, with green wallpaper and a large window behind her, looking pensive
Zendaya as Rue back in her high-school room for Episode 8

Em uma das cenas mais lindas da série — o que é difícil eleger porque não se pode negar a beleza na direção de Euphoria — vemos Rue correr até sua antiga casa para ajudar Fez (Angus Cloud) depois que ele teria fugido da cadeia, colocando em prática o plano que ele lhe contara no começo da temporada. A partir desse objetivo da personagem, uma sequência de cenas a leva até sua mãe, Leslie (Nika King) — e aqui eu admito que foi quando a ficha começou a cair, o coração a apertar e os olhos a encherem de lágrimas. Complementada com flashbacks de vários rostos importantes para a personagem — como o próprio Fez, sua mãe, seu pai e até mesmo a Jules —, a morte de Rue também é marcada por uma cena resgatada dos bastidores da gravação da primeira temporada, onde ela aparece ao lado de Angus — e aqui vou usar o nome do ator porque foi claramente uma homenagem a ele, que infelizmente veio a falecer em 2023.


Entre muitos erros e alguns acertos, essa terceira temporada teve sim um saldo positivo — justamente por segurar bem a carga dramática que se propunha a levantar. A decisão de encerrar a história da protagonista no meio do episódio gera um silêncio desconfortante para um público que já estava acostumado a ouvir a narração imprecisa e de baixa confiabilidade de uma personagem que aos poucos alimentava nossa esperança de salvação para si. Agora, concluindo essa review e tendo ciência de que estávamos presenciando o fim da série e não de uma temporada — o que já era óbvio, mas precisamos de certezas para firmar algumas posições —, temos um chão firme para pisar.


Confesso que, em um primeiro momento, senti que a insensibilidade de não dar uma cena de funeral para a Rue me incomodou — mas após alguns momentos digerindo o episódio, cheguei à conclusão de que era o que cabia. O vazio de não entender o luto dos personagens que orbitavam a protagonista é, inegavelmente, a arte em seu estado mais puro. Todo o remorso que a Lexi (Maude Apatow) carrega em suas indagações, o silêncio absoluto na tristeza da Jules e a memória do seu sorriso bonito pela Cassie nos atingem de forma magistral — porque, de certa forma, estamos com os mesmos pensamentos que esses personagens, sentindo a mesma perda e o mesmo desamparo.


Smiling young man and woman outdoors, wind in her hair, wearing blue lanyards with SUPREME text.
Zendaya and Angus Cloud back in 2019

Nos momentos que sucedem a ligeira passagem pelo luto, vemos Ali vingar a morte de Rue em um confronto arrepiante com Alamo, que definitivamente estabelece o que essa temporada veio fazer na série: brincar com a ideia do sonho americano a partir da metáfora mais crucial de todas sobre o "estamos a caminho de chegar lá" — o neo-western.


Euphoria se encerra após 7 anos de produção nos deixando com um resíduo amargo na boca — a tristeza de acompanhar de perto a vida de uma pessoa que enfrenta problemas com abuso de drogas. Com o peso de escrever uma história que infelizmente foi espelhada na vida real com o falecimento por overdose de um de seus atores, Sam Levinson surpreende ao construir uma narrativa que, apesar de turbulenta e com vários desníveis de linearidade, faz jus a uma realidade triste, sofrida e que atormenta quem a vive de perto. Mesmo com episódios desconexos e repetitivos que assustam o telespectador com a possibilidade de um esvaziamento criativo por parte do roteirista, quando Sam senta na cadeira e decide que quer fazer algo bem feito, ele consegue e surpreende — levantando uma temporada de episódios medianos com um final revigorante. Em meio a inúmeros 7, a temporada consegue se estabilizar em um bom 8 (3.5/5).



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