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  • Writer: Marcos S. Rutherford
    Marcos S. Rutherford
  • Aug 21
  • 8 min read

Vi um vídeo no Twitter, desses aesthetics com frases motivacionais, que falava: “você parece bem curada para uma garota que nunca recebeu um pedido de desculpas”, e isso me fez pensar em diversos momentos em que eu recebi, sim, um pedido de desculpas, mas que, não necessariamente, isso fez com que eu me sentisse curado.


É genuinamente intrigante quando dou de cara com alguma coisa na internet que prova, de forma engraçada, que nenhuma experiência é singular. Todos parecem estar no mesmo barco, vivendo situações parecidas cuja única diferença é o cenário e os detalhes que cada janela vigia está mostrando no pedacinho de cada um durante a navegação. Mais curioso ainda é que, mesmo com experiências tão próximas, nossos processos de cura nunca podem ser ajudados por aqueles que já passaram por isso antes. Não importa o quão parecido tenha sido.


Há aqueles que, após uma semana, ainda mal levantam da cama por questões mal resolvidas, e aqueles que, mesmo com os fatos extremamente claros, ainda vão remoer aquele sentimento por um tempo e estar na mesma posição de quem foi deixado no escuro, desamparado.


Esse vídeo que vi, junto a uma situação pela qual passei recentemente, me fez olhar para dentro e pensar, de uma forma bem Carrie Bradshaw à la I couldn’t help but wonder, se nós realmente precisamos ouvir as desculpas de quem nos machucou ou se o único perdão que vai nos curar é o de nós mesmos.


Sarah Jessica Parker como Carrie Bradshaw em 'Sex and the City'

Na última semana, em um lapso de inconsciência dos meus próprios afazeres emocionais, em vez de procurar ajuda para resolver particularidades da minha vida amorosa, decidi me aprofundar mais ainda no sentimento sorumbático, carregado com o espírito de uma criança birrenta de não conseguir o que queria, e comecei a ler 'Uma Paixão Simples', de Annie Ernaux.


A autora nos entrega a descrição perfeita do que é desejar alguém. A narrativa mergulha nesse estado de espera de forma visceral, íntima e sem muitos escrúpulos, e o que mais impacta na leitura não é o fato de a obra ter passagens explícitas, mas sim a crueza de um relato que é tão dolorosamente identificável que assusta. É como encarar um espelho que não perdoa, refletindo aquele lapso de inconsciência em que a nossa rotina, o nosso humor e até os nossos gostos passam a ser ditados exclusivamente pela iminência do outro.


Longe de tentar desenhar uma bússola moral sobre os relacionamentos, o texto abraça aquele sentimento denso, e por vezes melancólico, de quando a vida passa a ser mais sobre quem se ama do que sobre si mesmo. De forma breve e com uma objetividade quase desconfortável, Ernaux transforma a vulnerabilidade profunda e a perda voluntária do próprio "eu" em pura literatura, escancarando o fascínio, a angústia e a força hipócrita das expectativas que nós mesmos construímos durante a paixão.


Eu ainda não concluí a minha leitura porque, enfim, muitas vezes um espelho é mais doloroso do que um corte que recebemos de forma desprevenida. Mas todo esse sentimento de entrega por completo com o qual pude me identificar não me fez olhar para mim mesmo com bons olhos, com aquela positividade de quem se disponibiliza a viver o que há para viver, e sim com um certo repúdio; um incômodo incessante construído a partir da raiva de ter tido o tempo consumido por alguém que não me queria de fato e, principalmente, pelo nojo que eu sentia de mim mesmo por ter me deixado estar nessa posição.


Black-and-white portrait of Annie Ernaux beside her book cover, with bright pink and gold text and a Nobel Prize 2022 badge.
Annie Ernaux, por Fósforo Editora | 'Uma Paixão Simples' de Annie Ernaux

Sou a favor de criar expectativas em interações de relacionamentos que estão começando e, talvez, essa seja a parte mais hipócrita do meu ser, porque eu evito ao máximo e negativo todas as minhas estimas em relação às atitudes de todo mundo com quem começo a interagir romanticamente, meio que por medo da dor, ou de ter que passar pelo processo de se sentir incurável novamente. Mas, ao mesmo tempo, acho tão lindo estar próximo a alguém, independentemente de ser em estado romântico, que é algo tão incrível a ponto de "criar expectativas" se tornar inerente à sua relação com essa pessoa.


Particularmente, me apaixono cada vez mais quando sinto que posso estar confortável com o outro a ponto de criar expectativas em mim sobre o que pode ser o "nós". É como se você esperasse ganhar uma rosa de aniversário e fosse presenteado com um buquê de flores azuis. Existe um nível de percepção dos detalhes, às nuances de realizar um desejo seu incluindo outros gostos pessoais e, principalmente, à frequência com que isso ocorre — imagine que semanalmente algo assim aconteça; como não se sentir amado? Como não criar expectativas?


Eu trouxe um exemplo servido em uma forma grande, para ficar bem visível na mesa e chamar a atenção de qualquer um que passe, mas a verdade é que essas expectativas que são criadas acontecem em escalas bem menores. A pessoa só precisa te convencer uma vez de que ela é capaz.


Apesar de não me entregar tão facilmente às expectativas colocadas sobre uma pessoa específica, minhas esperanças de atitudes, por outro lado, são muito bem definidas, a ponto de me deixarem em um frenesi de alegria porque são baseadas naquilo que eu consigo idealizar para o outro. Por exemplo, uma vez, quando muito apaixonado, idealizei um presente de aniversário perfeito para alguém que eu sentia em cada átomo do meu corpo que era A pessoa. Envolvia minhas recordações da sua sobremesa favorita, de uma marca de roupas que marcara nossa primeira conversa, da minha cor preferida que muito lhe cativava e, claro, um buquê de flores, porque, para mim, é uma ótima maneira de demonstrar amor e carinho. Eu desejava esse mesmo cuidado comigo.


Geralmente, não gosto de ver o tempo como perdido. Toda experiência é válida, toda vivência é repertório. Mas, dessa vez em especial, o sentimento de derrota pós-coração partido foi tão intenso que eu me perguntava o que eu tinha feito de tão imoral contra a minha própria carne a ponto de o universo, a natureza ou Deus se virarem contra mim enquanto eu lacrimejava de dor física por esse sentimento tão macambúzio de ver essa pessoa não me escolher.


No começo, quando toda hora igual que eu via reafirmava meu destino feliz ao lado daquela pessoa, tudo era diferente e novo; parecia que eu nunca havia experimentado aquele sentimento antes. Todos os gestos de cuidado e ações de interesse faziam meus olhos brilharem e eu, com tentativas desonestas de me enganar ou retardar o sentimento — que obviamente foram falhas —, me convencia de que aquilo que estava acontecendo era coisa da minha cabeça, de que eu estava apenas imaginando cada uma daquelas interações, de que não havia interesse e, no máximo, éramos conhecidos.


Bom, não era.


Todas essas tentativas de definir o objetivo das atitudes alheias resultaram no declínio das minhas expectativas, que passaram a se adaptar ao que eu recebia, e não ao que um dia eu já havia imaginado.


Apaixonar-se, de forma recíproca, para mim deveria ser quase que mágico. Eu acredito que o amor é uma construção feita pelos dois lados envolvidos, mas a paixão realmente não tem como ser evitada ou fugida depois que acontece. Ela vem quando menos se espera, desestabiliza e te questiona — coisa que eu acreditava ter entendido tanto que já tinha buscado as soluções para as perguntas que nunca foram feitas. Essa mágica aconteceria em cada gesto de priorização, cuidado e reforço de que você está sendo visto pelo outro; é o que cria a sensação de que todo relacionamento é melhor no começo, de que havia mais esforço. Lembrar do restaurante favorito, nutrir memórias e carinho pelos lugares que foram visitados em conjunto, saber da cor favorita e se inundar na vontade de estar com essa pessoa o tempo todo e, como todo mundo que tenta fugir de um afogamento, gritar por socorro fazendo juras de amor a ela.


Acontece que, no processo de abrir mão de tudo isso para fazer com que o seu desejo de amar seja preenchido, você se perde. Naturalmente, perdemos um pouco de nós no processo regular para compartilhar a vivência com o outro; daí lugares, cores e cheiros passam a ter um rosto, o bloco de notas do celular começa a ocupar mais espaço do armazenamento pela madrugada e, de repente, a vida já é mais sobre o outro do que jamais foi sobre você. Mas em uma conversa qualquer, quando as coisas são vistas sob a luz da verdade, você precisa começar a encarar que talvez isso só estivesse acontecendo para você. Mesmo com todo o seu processo preventivo e com todas as palavras ditas pelo outro que te guiavam para o caminho oposto. Mesmo com todos os sinais, do universo e do seu corpo.


Nós tentamos, de forma malograda, fugir de um sentimento que está fadado a não dar certo. Não existe sinal confuso, tudo é muito óbvio quando não é para ser: a frieza toma conta dos pensamentos diurnos, a insegurança vem em forma de "nós não temos nada, não tem o que eu cobrar" e, ao mesmo tempo, toda balada romântica é sobre a gente, só que você tem vergonha de admitir para si mesmo que gosta tanto de alguém que não demonstra nada por você.


É a partir daqui que a ferida começa a doer porque, por incrível que pareça, ela não foi feita no momento de ruptura, mas sim nos pequenos detalhes que distorciam a complexidade dos momentos felizes — que já eram poucos demais. A mensagem que demorou a ser respondida, o toque na mão que foi diferente da última vez, o abraço que antes te gerava conforto e agora te escava. Mas você não tinha visto antes, você estava cego pelas próprias expectativas que jurava não serem ilusões, porque já tinha feito todo o processo de se defender.


Por fim, o último suspiro não vem com surpresa, raiva ou ódio; ele se instaura na relação e você apenas o aceita, até ele começar a incomodar demais. Mas aceitar nunca foi sobre deixar de amar o outro — você não escolheu aquilo —, está apenas lidando com o respeito que prevalece a ponto de você preferir não lutar quando as palavras "talvez devamos parar aqui" ecoam na sua cabeça na primeira noite sozinho. Mas o que eu faço com esse amontoado de amor que eu criei? Esse carinho que foi tecido em cada uma das nossas interações, que soam como as canções mais bonitas que meus ouvidos já puderam apreciar? O que eu faço com todo o espaço na minha vida que eu decorei para a gente sem que você pedisse? Esse sentimento drena. Drena a vontade de tentar de novo e drena a mim mesmo, que queria tanto te amar, e estava tão disposto a ser seu que simplesmente me doeu o fato de você não querer receber todo esse amor que eu criei. E, então, ele vem acompanhado de um pedido de desculpas, o mais sincero que você já pôde sentir.


Receber um pedido de desculpas implica uma percepção de noção do espaço a partir do outro; é como ser visto e não ser ignorado, mesmo por quem acorda ao seu lado todos os dias. Você pode, talvez, conseguir sentir o carinho, a preocupação e até mesmo a admiração que o outro tem por você a ponto de ter se colocado na posição de quem pede desculpas. Por outro lado, entretanto, depois de tanta dor, você pode enxergar isso como um ato egoísta de quem só quer se livrar de um peso que não quer carregar mais, porque, indiferente à nossa vontade, também precisamos nos sentir perdoados para seguir em frente e, para muita gente, um “tudo bem” já basta.


Mas como seguir a vida depois de ter atentado contra a própria existência ao se entregar para alguém que nunca esteve disposto a cuidar? Como se sentir curado quando se é cúmplice de toda a dor causada a si mesmo? Não é como se você não tivesse notado os sinais, que aqui eram de verdade, ou como se pudesse ficar com raiva apenas por ter recebido aquilo que pedia: uma pessoa madura o suficiente para não te deixar se afogar sozinho, alguém que te jogaria a boia quando visse que você precisava.


Cabe a mim o pedido de desculpas que vai me curar.



Ouça a playlist do Love Issue #003:

Vez ou outra, desenvolvo uma playlist para acompanhar as leituras dos Love Issues. Esse foi o tipo de Issue que pediu uma trilha sonora.


A ideia é que a The 'Love' Issue Playlist seja construída de forma colaborativa, então deixem nos comentários, no Instagram (@newmean4u) ou sugira uma outra forma para que todos nós possamos colaborar com a nossa playlist oficial.


Ouça também a The 'Love' Issue #003, a playlist dedicada especialmente à esse capítulo.



Overlapping Polaroid-style photos show a young man taking selfies in a photo booth/editing screen, with a neutral, focused look. Marcos Rutherford.
Marcos Rutherford para 'Conversa Intrusiva'

Inevitavelmente vivemos os anos mais dolorosos de nossas vidas durante os vinte anos de idade. Não por experiências negativas de fato, mas sim pelo processo de aprender que é impraticável sem a dor.


Amores não correspondidos, lidar com a rotina de um primeiro emprego, aprender a declarar o próprio imposto de renda e até amizades que acompanharam a gente a vida toda e, reciprocamente, não fazem mais parte do nosso cotidiano. 


Tudo isso é aprendizado, mesmo marcado por uma dor, seja ela do incômodo ou da indiferença, é necessário passar pela experiência para amadurecer e crescer.


Estar nos 20 anos é como entrar com um corte exposto em um tanque de tubarões: a todo momento você vai estar lidando com algo tirando um pedaço de você, da sua atenção, energia ou crença. Você é colocado em dúvida por si mesmo, não entende o que é evolução ou retrocesso, o que quer ou deixa de querer e, do nada, quando menos espera, você dá de cara com a necessidade de se ausentar da sua própria vida.


Se ausentar da sua própria vida não é deixar as coisas acontecerem sem sua interferência, é sobre deixar que aquele momento perpasse por você sem que você necessariamente deposite energia naquilo, porque tem mais coisa pra cuidar, você tem a si mesmo para tomar de conta.


Muitas vezes é difícil, no auge da juventude, você ser praticamente obrigado a parar o cotidiano com a energia do “fazer acontecer” e adotar um ritmo do “olhe para você”. É geral, acontece na faculdade, no trabalho e, por mais que não seja o que eu foquei em expressar nesse episódio, dentro dos nossos relacionamentos amorosos. 


Amar é difícil, é complexo e além de lidar com a gente, passamos a lidar com o outro. Por mais que haja paixão e sentimento, que trazem uma base sólida para se firmar na hora de arriscar, a “pista está salgada”, então é muito difícil confiar em alguém, reduzir expectativas e ações a um like no story do Instagram e mesmo assim passar pelo processo de um término que você não escolheu viver.


Nesse episódio trago um caso pessoal com uma narrativa detalhada afim de generalizar a situação e tirar um aprendizado disso, afinal, a vida é sobre esse movimento: nós seguimos no meio da dor, num breu caótico e só depois que enxergamos a luz no fim do túnel, entendemos as nossas ações e começamos a nos perdoar por ter sentido toda aquela dor. É como um término que você não quer sair, que você fica remoendo e depois entende que não te cabia ali.


A conversa intrusiva de hoje é justamente sobre essas coisas que não escolhemos, mas elas escolhem a gente, assim como o nome do nosso podcast que chegou do nada e ficou.



Photo booth screen on an iMac shows a man in glasses making a pouty selfie, with thumbnail strips and a red camera button visible.
Marcos Rutherford para 'Conversa Intrusiva'

O episódio de hoje, que nasceu de uma conversa noturna entre as quadras de Brasília com uma amiga, é uma reflexão sobre o que estamos exigindo, procurando e onde estamos fundamentando nossas relações, principalmente as amorosas. Parte dessas ideias foram reforçadas com repertório que venho desenvolvendo para a elaboração de artigos da New Mean 4u e, ter esse "contato cruzado" das coisas, trouxe algumas camadas que eu considero interessante para a discussão.


Falar sobre sentimentos, principalmente o amor, é sempre muito prolixo, melancólico e repleto de incertezas que nunca se tornarão certezas. Quase qualquer obra pode ser sobre amor, mas nem toda obra é sobre amor e assim são as nossas interações no mundo digital, dos likes até as mensagens não trocadas no WhatsApp.


Utilizo da máxima "o preço de amar alguém e nunca mais amar ninguém", frequentemente atribuída a Fiódor Dostoiévski, para convidar quem ouvir a esse episódio para contribuir com pensamentos e opiniões nos comentários ou nas redes sociais (abrirei uma caixinha na sexta-feira, rsrs)



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