Quando o amor não consegue nos salvar de nós mesmos, a quem ou a que devemos recorrer? - 'you seem pretty sad for a girl so in love' Album Review
- Marcos S. Rutherford

- Jun 14
- 9 min read
Coincidência ou não, 'you seem pretty sad for a girl so in love', terceiro álbum de estúdio de Olivia Rodrigo, chega em pleno Dia dos Namorados no Brasil e apresenta os dois lados da moeda de se apaixonar e estar em um relacionamento.

Antes de tudo, sinto que é extremamente importante ressaltar que a Olivia Rodrigo é exatamente 180 dias mais velha que eu, ou seja, temos basicamente a mesma idade e isso faz com que eu me identifique e me conecte com o que ela canta em suas composições de uma forma muito mais direta e relatable. Para mim, toda review carrega esse sentimento de ser uma análise técnica a partir do meu conhecimento dentro do que estou analisando. Ela tem sim que estar acima do meu gosto pessoal, mas sem ignorá-lo completamente, usá-lo como direcionador e, a partir disso, contextualizar tudo para quem está lendo — em uma espécie de barganha para que você consiga entender meu veredito.
Dito isso, após me identificar com a discografia quase que por completo de Olivia Rodrigo desde 2021, 'you seem pretty sad for a girl so in love' chegou até mim como algo completamente novo que trazia essa ambiguidade entre abraçar o inédito e honrar tradições já criadas. O álbum de cara já quebra o padrão de títulos com quatro letras e, com o lançamento de drop dead, quebra também a sequência de tracks 3 como lead singles. Além disso, o aspecto mais expressivo até aqui, o álbum não usa a cor já inegavelmente assinatura da artista como parte de sua estética: o roxo.
CURIOSIDADES: O apelido do álbum é "love" e a junção das cores do vestido da capa com o tom de azul do céu resulta no exato mesmo roxo de seu álbum de estreia, SOUR.


'drop dead' é um single lindo que foge de tudo que a Olivia já fez justamente por ser alegre e bem menos melancólico. É perfeito como lead single porque apresenta bem o que deveria ser uma história de amor linda que nasce a partir de um date incrível e já te gera expectativas desde o comecinho. Tem uma composição lírica muito característica da Olivia que eu consigo identificar à medida que cada palavra sai da boca dela, mas o desenvolvimento melódico e a construção da produção já vão para um lugar que soa novo quando associado à sua carreira. O ponto forte aqui para mim é a quebra entre a suavidade do violino, que traz essa textura orquestral enquanto se choca de forma muito gostosa de ouvir com o ritmo definido pela guitarra e bateria.
Como primeiro material de um álbum que mudou tanto dos acordos que a artista mantinha com quem já a acompanha, Olivia fez uma ótima apresentação do que consegue trazer de diferente depois de três anos desde o seu último lançamento.

Quando a tracklist do álbum foi revelada, ficou claro que o que nos estava sendo apresentado se tratava de um trabalho dividido em duas partes: o girl so in love, que contém sete faixas, e o you seem pretty sad, que conta com seis. Até o lançamento oficial do álbum, através de apresentações e até mesmo o lançamento de the cure como single, mesmo sendo a parte menor do álbum, Olivia nos contou muito mais do seu lado pretty sad do que do seu lado so in love. Apenas no dia do lançamento vemos outra faixa da primeira parte ser escolhida.
'stupid song' ganha o título de terceiro single da era e, apesar de ser uma belíssima carta de amor que me contagiou pela letra e pela quebra de progressão, o que mais me surpreendeu aqui foi a evolução vocal. A alteração na tonalidade e intenção de um verso para o outro, que muda e brinca ao ir contra as batidas da música, é surpreendente.

Eu tinha a teoria de que todo esse cuidado em não nos apresentar antecipadamente o lado mais feliz (se é que podemos chamar assim) do álbum era uma estratégia de mostrar o que nós, como público, já conhecíamos, que era o lado mais triste, e deixar o novo para o lançamento do material completo. 'honeybee' quebra um pouco essa minha teoria e se mostra uma música que segue um padrão que consigo identificar nos dois projetos anteriores. É uma composição com produção que soa mais simples (mesmo que na prática não seja) e isso não necessariamente a reduz em termos de qualidade, na verdade, valoriza a construção lírica que foi o diferencial aqui. É uma ótima faixa de amor que apesar de ir numa linha que já conversa mais com aquela sensação de não querer mais sair desse conforto emocional e brinca com o medo de perder alguém que você ama, se encaixa muito bem nessa posição do álbum em sonoridade e lírica, já que é muito característico de se estar so in love. No geral a faixa só não traz nenhuma grande novidade e tudo bem também, é bom para relembrar de onde estamos vindo.
Quase que de forma kármica, 'maggots for brains' é uma música bem diferente no álbum e que traz toda aquela ideia que eu tive para essa primeira parte do disco que 'honeybee' não cumpriu. Não ironicamente, foi a música que menos gostei e, nas vezes que fiz o relistening do álbum, a que eu queria que passasse logo. A letra é muito interessante e tem referências à 'Sex and the City' que é uma das minhas séries favoritas da vida, mesmo assim, não me prendeu a ponto de voltar à faixa e, abrindo um parêntese aqui, apesar da Olivia ter citado 'Paixão Simples', de Annie Ernaux, como inspiração para 'stupid song' especificamente, foi aqui que eu pude pegar algumas referências do livro. Funciona pro álbum mas não funcionou pra mim até o momento. Pode ser que em uma revisita futura isso mude pois sinto um dinâmismo na melodia que promete ser chiclete dependendo do nível de exposção à canção.
You plus me equals a heart forever, ou 'u + me = <3,' traz uma dinâmica lírica muito divertida e realmente me conquistou por isso, mas não é como se eu pudesse resistir à sonoridade que, de alguma forma, me trouxe um sentimento meio nostálgico e me deixou cantarolando esse verso mesmo enquanto escrevia outras partes dessa review. A construção da produção nessa música me conectou com 'Forever', da banda CHVRCHES, e 'Big Girls Don't Cry', da Fergie, de uma forma muito bonita e original.

Com tudo o que eu falei até aqui, você já sabe que atingi o ponto que eu esperava com 'my way'. Música insanamente perfeita que enfatiza que estamos falando de uma artista que se consolidou muito bem e tem uma identidade própria mesmo com tantas referências e inspirações, é o tipo de faixa que não te faz esquecer que isso que estamos ouvindo é Olivia Rodrigo. É pop rock, é feroz, é sentimental além do ponto de uma forma extremamente positiva e acima de tudo é completamente nova. É tão boa que honestamente não consigo discorrer sem entrar em um movimento cíclico e exploratório de encontrar palavras magníficas para expressar o que senti aqui. É a apoteose do álbum, pelo menos do lado girl so in love.
Em 'purple' nos deparamos com a faixa mais complexa de se digerir. A letra é envolvente e a forma como toda a narrativa é desenhada e desenvolvida me cativa bastante — a melodia e a produção vão para um caminho muito interessante que agrada e está bem alinhado com as expectativas, mas de alguma forma deixam um sentimento de desconexão, uma sensação meio isolada de percepção de uma e de outra. Como a própria Olivia disse, aqui é onde as coisas começam a desmoronar e a história passa a tomar outro rumo e isso me parece exatamente o que sinto ouvindo essa faixa, e isso torna a experiência poética e imersiva, mas honestamente não consigo entender com clareza o que se passa nessa conversa de sentimentos entre o que ela fala e o que é absorvido.
A sequência 'the cure', 'begged' e 'what's wrong with me' não é necessariamente uma novidade pois todas as três faixas foram apresentadas antes do lançamento do álbum e cada uma tomou um rumo diferente. Além disso, comercialmente falando, foram usadas em propostas e situações paralelas que afetam a percepção delas no final, como arte e como trabalho midiático.

Felizmente estou cada vez mais distante de me identificar com 'the cure', mas é engraçado porque acredito que essa seja uma das minhas faixas preferidas no álbum, se não a preferida. É difícil imaginar outra música que me geraria mais identificação quando uma tão boa assim existe — e quando eu falo boa, é incrivelmente boa mesmo, em todas as suas formas de apresentação. A cada performance ao vivo essa canção cresce mais e marca um avanço nas técnicas da Olivia que a tornam igualmente formidável de se ouvir, em estúdio ou ao vivo.
'begged' vai em um caminho diferente e não funcionou para mim no ao vivo. É uma boa performance, mas eu a vi uma vez antes do álbum e não me chamou tanto a atenção quanto chama aqui. Saiu de uma faixa qualquer para uma que fico levemente ansioso de ouvir na sequência, porque sei que depois de uma experiência muito boa como the cure, vem uma igualmente boa. Gostei bastante da ideia de apresentar músicas inéditas ao vivo como divulgação sem necessariamente lançá-las como singles — infelizmente, o potencial de begged pode ter sido desperdiçado nessa estratégia. Quando funciona, a ideia de divulgação é inegavelmente muito boa; prova disso é 'what's wrong with me', que bebe desse mesmo copo mas aqui teve um resultado diferente.

A primeira colaboração na carreira da Olivia Rodrigo já chega em níveis altíssimos, com um feat com ninguém mais ninguém menos que Robert Smith do The Cure. 'what's wrong with me' foi apresentada pela primeira vez durante a performance surpresa da Olivia no Primavera Sound, seis dias antes do lançamento oficial, e foi um presente que eu recebi muito bem. Honestamente, fiquei ouvindo a performance até o último instante antes do álbum e, quando tive a oportunidade de ouvi-lo pela primeira vez, me segurei bastante para não ir direto à faixa e descobrir como era a versão de estúdio — que é boa, mas não tão surpreendente quanto a performance. A versão de estúdio me soou um pouco mais empobrecida em instrumentos e com um aspecto que eu chamei de slow motion sonoro. É muito boa, mas vou precisar me acostumar e também quero uma versão oficial da performance do Primavera Sound.
Na reta final do you seem pretty sad, 'less' entrega uma letra que conversa exatamente com a divisão que o projeto se compromete a fazer. É melancólico, marca um aprofundamento narrativo que te imerge nos sentimentos que cada nota no piano toca. Novamente, assim como 'honeybee', não se destaca como algo tão inovador ou inédito, mas isso já não era algo que eu esperava desse lado do álbum, e mesmo assim a faixa traz um certo amadurecimento e funciona muito bem nesse momento. A não identificação causa um afastamento devido à toda particularidade lírica, confesso, mas ainda assim consegui apreciar muito bem essa composição que definitivamente tem como ponto forte justamente isso, a lírica.
Prestes a finalizar seu terceiro trabalho de estúdio, Olivia novamente entrega uma ótima surpresa que expande horizontes e conversa muito com a surpreendente 'my way'. 'expectations' vai contra a maré e entrega uma batida animada com uma letra que brinca com o que esperar de um próximo relacionamento, do checklist a se montar e dos erros que você não quer repetir da próxima vez. A inserção dessa faixa no final do álbum foi muito divertida e condizente com a narrativa que foi proposta, mas a faixa seguinte quebra completamente isso e trás um regresso lógico que, na verdade, é muito humano e emocional. Isso foi a coisa mais genial para essa etapa do álbum: quebra muito o que se espera e acaba tirando da monotonia.
Para fechar o álbum, Olivia nos entrega 'cigarette smoke', uma faixa bem carregada de tristeza ao ser interpretada com um tom de desesperança e uma produção focada no violão, se contrapondo completamente com a antecessora 'expectations' e te retornando a um lugar de quem ainda não está tão pronto assim para seguir em frente. A letra traz de volta o "nome" honeybee de uma nova perspectiva que te faz desmoronar. É sobre aquela sensação de tentar tanto seguir em frente e mesmo assim seu máximo não ser o suficiente, ao ponto que você simplesmente desaba em um ciclo de melancolia, cansaço e memórias que perdem a cor e viram apenas pesadelos como se você fosse uma criança perdida sem seus pais, tudo isso enquanto você sente uma saudade profunda de algo que muito provavelmente não volta mais, assim como o álbum que aqui chega ao fim. Excelente encerramento narrativo.

Com aproximadamente 5 anos de carreira, Olivia Rodrigo definitivamente caminha para uma consagração como artista de nível admirável. Com 'you seem pretty sad for a girl so in love', Olívia narra perfeitamente o sentimento de se apaixonar, amar, crescer e deixar ir. É uma construção narrativa feita de forma impecável, tanto em lírica quanto em sonoridade. Tudo conversa muito bem e mesmo com algumas possibilidades não aproveitas aqui ainda, seu terceiro trabalho de estúdio se segura muito bem em referências da cultura pop, identifição narrativa e uma produção admirável pelo Daniel Nigro. O álbum não apenas desafia todo o ecossistema que Olivia Rodrigo havia criado até aqui, ele se reinventa mantendo uma assinatura que já é tão forte que a coloca à beira de ser consagrada como uma das maiores artistas de sua geração.

(4.5/5)



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