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Quando você ainda tem muito a confessar - 'CONFESSIONS II' Album Review

  • Writer: Pedro Sena
    Pedro Sena
  • Jul 3
  • 5 min read

Está entre nós, CONFESSIONS II, sequência de Confessions on a Dance Floor, álbum de 2005 de uma das maiores lendas da música, Madonna. Lançado nesta sexta-feira (03), o disco nos presenteia com uma excelente atmosfera disco e clubber com uma produção fenomenal que parece repetir um mantra: "If your dance floor feels dead, maybe you're playing the wrong music."


Woman in pink-red stage lighting poses on the floor, mirrored in a double exposure, with long blonde hair and a sultry mood.
Madonna para o álbum 'CONFESSIONS II'.

Com 16 faixas, o álbum nos leva para dentro de uma discoteca e de todos os sentimentos que cabem nela: da chegada até o momento em que a pista esvazia e a festa termina. Com uma sonoridade majoritariamente dance e eletrônica, Madonna nos convida para uma produção coassinada por Stuart Price, produtor que também participou da gravação e da composição do álbum original no começo dos anos 2000. O projeto ainda reúne participações de nomes de diferentes gerações, como Martin Garrix, Sabrina Carpenter, Feid, Stromae e sua filha mais velha, Lola Leon.


Na coletiva de imprensa após o anúncio do álbum, a Rainha do Pop se reuniu com Stuart Price e explicou como queria que essa obra fosse recebida pelo público e qual era sua visão para a continuação de um dos discos mais aclamados de sua carreira.


"Precisamos dançar, celebrar e rezar com os nossos corpos. Essas são coisas que fazemos há milhares de anos, elas são realmente práticas espirituais. Afinal, a pista de dança é um espaço ritualístico. É um lugar onde você se conecta com as suas feridas, com a sua fragilidade. Festejar em raves é uma arte. É sobre testar os seus limites e se conectar com uma comunidade de pessoas na mesma sintonia. O som, a luz e a vibração remodelam as nossas percepções, nos levando a um estado de transe. A repetição dos graves nós não apenas ouvimos mas sentimos, alterando a nossa consciência e dissolvendo o ego e o tempo."

Woman in a sheer pink veil sits on a speaker box against a purple backdrop, creating a dreamy, mysterious mood.
Madonna para a capa do 'CONFESSIONS II'.

A introdução do álbum, I Feel So Free, resgata uma Madonna que fala com liberdade sobre seu legado na pista de dança, fazendo um aceno claro a Bedtime Story (1994). Durante a faixa, você sente como se estivesse entrando em uma boate: os corpos encontrando o ritmo, o brilho das luzes e os primeiros olhares entre aqueles que não querem que a noite acabe.


Uma das características mais marcantes, tanto do primeiro Confessions quanto desta sequência, é a transição entre as faixas, fazendo com que sua estrutura sonora se aproxime de um DJ set das principais baladas de Nova York. Isso reforça sua identidade e mostra que Madonna conhece não apenas os fãs do álbum original, mas também a cultura clubber que viveu nos anos 80 e 90. Em seguida, Good For The Soul resgata a mensagem de Impressive Instant, do álbum Music (2000), compartilhando o mesmo estado de transe e utilizando metáforas cósmicas para descrever a transcendência provocada pela dança e pelo amor, mesmo 26 anos depois.


Na terceira faixa, One Step Away, é notável a mudança de humor e tonalidade do álbum. É como se o corpo já estivesse completamente adaptado à pista e estivesse, literalmente, "a um passo" de transcender naquele espaço. Essa transformação acontece na faixa seguinte, Bring Your Love, lead single do álbum em parceria com Sabrina Carpenter. O encontro de gerações é um dos grandes acertos da música e mostra que esse universo criado por Madonna continua vivo e seguro nas próximas gerações. Mais do que manter seu legado, ela continua sendo vista com respeito pelos artistas mais novos. A faixa também aborda o desafio de lidar com o julgamento externo e com as métricas algorítmicas da indústria musical, tema cada vez mais presente nas discussões sobre música atualmente.


Two blonde performers on a dark concert stage point outward, one in white lace bodysuit and wings, the other in purple outfit.
Madonna e Sabrina Carpenter durante o Coachella 2026.

Na quinta faixa, Danceteria — ouso dizer uma das melhores do álbum e uma espécie de Vogue para a década de 2020, pelas inúmeras referências a figuras da cena —, tudo funciona. É empolgante, intensa e desperta aquela vontade de tomar um drink forte e suar na pista colado na pessoa que você quer beijar a noite inteira. A música também faz referência à Danceteria, lendária boate de Nova York do início dos anos 1980, onde a carreira da Rainha do Pop começou. Mantendo essa energia, Madonna se aventura no espanhol em Read My Lips, parceria com Feid que incorpora elementos mais orgânicos, uma base levemente acústica e toques de reggaeton, funcionando como uma clara homenagem a Medellín, do Madame X.


Nas faixas seguintes, fica evidente a narrativa da noite que Madonna quer que você viva por meio da música. Primeiro, ela reafirma sua própria força (Everything). Depois, apresenta a libertação através de um amor especial (Love Sensation e Love Without Words). Em seguida, mostra um amor estranho e intenso (Bizarre). E, por fim, responde a quem insiste em lhe ensinar aquilo que ela já sabe (School). A sonoridade desse bloco traduz exatamente a intensidade que ela quer provocar: pelo corpo, pela boca e pelo sexo, características que inevitavelmente remetem ao seu polêmico livro Sex, de 1992.


Close-up of a woman with eyes closed, her face striped by pink and purple light against a soft magenta studio background.
Madonna para o álbum 'CONFESSIONS II'.

Entrando no último ato de CONFESSIONS II, as cinco faixas finais nos levam a um lugar mais emotivo e sentimental, criando a sensação de que a festa está terminando e o sol logo vai nascer. Fragile — que, na minha opinião, é um grande tributo a Ray of Light — fala sobre sua espiritualidade e sobre como a mente se torna frágil quando está abalada. A música também funciona como uma homenagem ao seu irmão, Christopher Ciccone, e foi descrita por Madonna como "uma forma de catarse" e "um exorcismo".


Em seguida, My Sins Are My Savior mistura espiritualidade e amor para revisitar suas memórias afetivas, sejam elas românticas, familiares, fraternas ou platônicas, conectando diferentes momentos de sua vida ao álbum original e à sua continuação. Logo depois vem Betrayal, momento em que o amor vivido na pista é colocado à prova diante da fé. A faixa mostra uma personagem que, mesmo traída, ainda se sente amada, embora completamente sozinha e deslocada. Ela continua dançando, mas nunca esquece aquilo que viveu.


"And now we're dancing, yes, we're dancing. We're together forever. You betrayed me, you enslaved me. We're together 'til the end."

Two glamorous women pose closely in a nightclub, hugging in front of a blue wall with champagne glasses and a bottle behind them.
Madonna e sua filha, Lola Lean.

Perto do fim, Madonna nos leva ao seu lado mais sensível com The Test, emocionante parceria com Lola Leon, que ganha ainda mais significado ao saber que foi a própria filha quem propôs escrever uma música juntas como forma de ajudar a curar a relação entre mãe e filha.


Para fechar a pista de dança e finalmente ir embora, temos a impecável L.E.S Girl. Relembrando um passado que já desaparecia antes mesmo do álbum original existir, a faixa conta a história de uma garota do Lower East Side — a própria Madonna — descobrindo a maioridade, a vida adulta e o amor pelas ruas de Nova York, cidade onde criou sua identidade artística, experimentou a liberdade e construiu sua carreira.


Blonde woman in blue dress stands before four men at urinals in a tiled restroom, posing with a bold pop-star look.
Madonna em 'Confessions II - The Film', disponível no Youtube

Com esse conjunto de faixas, CONFESSIONS II se transforma em uma grande celebração de Madonna a si mesma. Não porque ela apenas permaneceu no topo, mas porque foi ela quem ajudou a construir esse lugar. Um espaço que pertence a poucas pessoas e que abriu caminho para inúmeros artistas de sua geração e das seguintes brilharem.


Se um dia a pista de dança morrer, saibam que Madonna não estará mais entre nós. Porque, enquanto estiver viva, existe uma certeza: ela continuará mantendo a pista, a música, o brilho e a sensualidade vivos.


Isso é legado. Isso são confissões. Essa é a Madonna. Bravo, bravo, bravo!


(5/5)

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