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Está entre nós, CONFESSIONS II, sequência de Confessions on a Dance Floor, álbum de 2005 de uma das maiores lendas da música, Madonna. Lançado nesta sexta-feira (03), o disco nos presenteia com uma excelente atmosfera disco e clubber com uma produção fenomenal que parece repetir um mantra: "If your dance floor feels dead, maybe you're playing the wrong music."


Woman in pink-red stage lighting poses on the floor, mirrored in a double exposure, with long blonde hair and a sultry mood.
Madonna para o álbum 'CONFESSIONS II'.

Com 16 faixas, o álbum nos leva para dentro de uma discoteca e de todos os sentimentos que cabem nela: da chegada até o momento em que a pista esvazia e a festa termina. Com uma sonoridade majoritariamente dance e eletrônica, Madonna nos convida para uma produção coassinada por Stuart Price, produtor que também participou da gravação e da composição do álbum original no começo dos anos 2000. O projeto ainda reúne participações de nomes de diferentes gerações, como Martin Garrix, Sabrina Carpenter, Feid, Stromae e sua filha mais velha, Lola Leon.


Na coletiva de imprensa após o anúncio do álbum, a Rainha do Pop se reuniu com Stuart Price e explicou como queria que essa obra fosse recebida pelo público e qual era sua visão para a continuação de um dos discos mais aclamados de sua carreira.


"Precisamos dançar, celebrar e rezar com os nossos corpos. Essas são coisas que fazemos há milhares de anos, elas são realmente práticas espirituais. Afinal, a pista de dança é um espaço ritualístico. É um lugar onde você se conecta com as suas feridas, com a sua fragilidade. Festejar em raves é uma arte. É sobre testar os seus limites e se conectar com uma comunidade de pessoas na mesma sintonia. O som, a luz e a vibração remodelam as nossas percepções, nos levando a um estado de transe. A repetição dos graves nós não apenas ouvimos mas sentimos, alterando a nossa consciência e dissolvendo o ego e o tempo."

Woman in a sheer pink veil sits on a speaker box against a purple backdrop, creating a dreamy, mysterious mood.
Madonna para a capa do 'CONFESSIONS II'.

A introdução do álbum, I Feel So Free, resgata uma Madonna que fala com liberdade sobre seu legado na pista de dança, fazendo um aceno claro a Bedtime Story (1994). Durante a faixa, você sente como se estivesse entrando em uma boate: os corpos encontrando o ritmo, o brilho das luzes e os primeiros olhares entre aqueles que não querem que a noite acabe.


Uma das características mais marcantes, tanto do primeiro Confessions quanto desta sequência, é a transição entre as faixas, fazendo com que sua estrutura sonora se aproxime de um DJ set das principais baladas de Nova York. Isso reforça sua identidade e mostra que Madonna conhece não apenas os fãs do álbum original, mas também a cultura clubber que viveu nos anos 80 e 90. Em seguida, Good For The Soul resgata a mensagem de Impressive Instant, do álbum Music (2000), compartilhando o mesmo estado de transe e utilizando metáforas cósmicas para descrever a transcendência provocada pela dança e pelo amor, mesmo 26 anos depois.


Na terceira faixa, One Step Away, é notável a mudança de humor e tonalidade do álbum. É como se o corpo já estivesse completamente adaptado à pista e estivesse, literalmente, "a um passo" de transcender naquele espaço. Essa transformação acontece na faixa seguinte, Bring Your Love, lead single do álbum em parceria com Sabrina Carpenter. O encontro de gerações é um dos grandes acertos da música e mostra que esse universo criado por Madonna continua vivo e seguro nas próximas gerações. Mais do que manter seu legado, ela continua sendo vista com respeito pelos artistas mais novos. A faixa também aborda o desafio de lidar com o julgamento externo e com as métricas algorítmicas da indústria musical, tema cada vez mais presente nas discussões sobre música atualmente.


Two blonde performers on a dark concert stage point outward, one in white lace bodysuit and wings, the other in purple outfit.
Madonna e Sabrina Carpenter durante o Coachella 2026.

Na quinta faixa, Danceteria — ouso dizer uma das melhores do álbum e uma espécie de Vogue para a década de 2020, pelas inúmeras referências a figuras da cena —, tudo funciona. É empolgante, intensa e desperta aquela vontade de tomar um drink forte e suar na pista colado na pessoa que você quer beijar a noite inteira. A música também faz referência à Danceteria, lendária boate de Nova York do início dos anos 1980, onde a carreira da Rainha do Pop começou. Mantendo essa energia, Madonna se aventura no espanhol em Read My Lips, parceria com Feid que incorpora elementos mais orgânicos, uma base levemente acústica e toques de reggaeton, funcionando como uma clara homenagem a Medellín, do Madame X.


Nas faixas seguintes, fica evidente a narrativa da noite que Madonna quer que você viva por meio da música. Primeiro, ela reafirma sua própria força (Everything). Depois, apresenta a libertação através de um amor especial (Love Sensation e Love Without Words). Em seguida, mostra um amor estranho e intenso (Bizarre). E, por fim, responde a quem insiste em lhe ensinar aquilo que ela já sabe (School). A sonoridade desse bloco traduz exatamente a intensidade que ela quer provocar: pelo corpo, pela boca e pelo sexo, características que inevitavelmente remetem ao seu polêmico livro Sex, de 1992.


Close-up of a woman with eyes closed, her face striped by pink and purple light against a soft magenta studio background.
Madonna para o álbum 'CONFESSIONS II'.

Entrando no último ato de CONFESSIONS II, as cinco faixas finais nos levam a um lugar mais emotivo e sentimental, criando a sensação de que a festa está terminando e o sol logo vai nascer. Fragile — que, na minha opinião, é um grande tributo a Ray of Light — fala sobre sua espiritualidade e sobre como a mente se torna frágil quando está abalada. A música também funciona como uma homenagem ao seu irmão, Christopher Ciccone, e foi descrita por Madonna como "uma forma de catarse" e "um exorcismo".


Em seguida, My Sins Are My Savior mistura espiritualidade e amor para revisitar suas memórias afetivas, sejam elas românticas, familiares, fraternas ou platônicas, conectando diferentes momentos de sua vida ao álbum original e à sua continuação. Logo depois vem Betrayal, momento em que o amor vivido na pista é colocado à prova diante da fé. A faixa mostra uma personagem que, mesmo traída, ainda se sente amada, embora completamente sozinha e deslocada. Ela continua dançando, mas nunca esquece aquilo que viveu.


"And now we're dancing, yes, we're dancing. We're together forever. You betrayed me, you enslaved me. We're together 'til the end."

Two glamorous women pose closely in a nightclub, hugging in front of a blue wall with champagne glasses and a bottle behind them.
Madonna e sua filha, Lola Lean.

Perto do fim, Madonna nos leva ao seu lado mais sensível com The Test, emocionante parceria com Lola Leon, que ganha ainda mais significado ao saber que foi a própria filha quem propôs escrever uma música juntas como forma de ajudar a curar a relação entre mãe e filha.


Para fechar a pista de dança e finalmente ir embora, temos a impecável L.E.S Girl. Relembrando um passado que já desaparecia antes mesmo do álbum original existir, a faixa conta a história de uma garota do Lower East Side — a própria Madonna — descobrindo a maioridade, a vida adulta e o amor pelas ruas de Nova York, cidade onde criou sua identidade artística, experimentou a liberdade e construiu sua carreira.


Blonde woman in blue dress stands before four men at urinals in a tiled restroom, posing with a bold pop-star look.
Madonna em 'Confessions II - The Film', disponível no Youtube

Com esse conjunto de faixas, CONFESSIONS II se transforma em uma grande celebração de Madonna a si mesma. Não porque ela apenas permaneceu no topo, mas porque foi ela quem ajudou a construir esse lugar. Um espaço que pertence a poucas pessoas e que abriu caminho para inúmeros artistas de sua geração e das seguintes brilharem.


Se um dia a pista de dança morrer, saibam que Madonna não estará mais entre nós. Porque, enquanto estiver viva, existe uma certeza: ela continuará mantendo a pista, a música, o brilho e a sensualidade vivos.


Isso é legado. Isso são confissões. Essa é a Madonna. Bravo, bravo, bravo!


(5/5)

Coincidência ou não, 'you seem pretty sad for a girl so in love', terceiro álbum de estúdio de Olivia Rodrigo, chega em pleno Dia dos Namorados no Brasil e apresenta os dois lados da moeda de se apaixonar e estar em um relacionamento.


Portrait of a young woman with long brown hair and a white shirt, arms crossed, against a plain white background, calm expression
Olivia Rodrigo.

Antes de tudo, sinto que é extremamente importante ressaltar que a Olivia Rodrigo é exatamente 180 dias mais velha que eu, ou seja, temos basicamente a mesma idade e isso faz com que eu me identifique e me conecte com o que ela canta em suas composições de uma forma muito mais direta e relatable. Para mim, toda review carrega esse sentimento de ser uma análise técnica a partir do meu conhecimento dentro do que estou analisando. Ela tem sim que estar acima do meu gosto pessoal, mas sem ignorá-lo completamente, usá-lo como direcionador e, a partir disso, contextualizar tudo para quem está lendo — em uma espécie de barganha para que você consiga entender meu veredito.


Dito isso, após me identificar com a discografia quase que por completo de Olivia Rodrigo desde 2021, 'you seem pretty sad for a girl so in love' chegou até mim como algo completamente novo que trazia essa ambiguidade entre abraçar o inédito e honrar tradições já criadas. O álbum de cara já quebra o padrão de títulos com quatro letras e, com o lançamento de drop dead, quebra também a sequência de tracks 3 como lead singles. Além disso, o aspecto mais expressivo até aqui, o álbum não usa a cor já inegavelmente assinatura da artista como parte de sua estética: o roxo.


CURIOSIDADES: O apelido do álbum é "love" e a junção das cores do vestido da capa com o tom de azul do céu resulta no exato mesmo roxo de seu álbum de estreia, SOUR.


Woman lounging on a bed with a laptop in pink light, in a dark cozy room.
Olivia Rodrigo no clipe de 'drop dead'.

'drop dead' é um single lindo que foge de tudo que a Olivia já fez justamente por ser alegre e bem menos melancólico. É perfeito como lead single porque apresenta bem o que deveria ser uma história de amor linda que nasce a partir de um date incrível e já te gera expectativas desde o comecinho. Tem uma composição lírica muito característica da Olivia que eu consigo identificar à medida que cada palavra sai da boca dela, mas o desenvolvimento melódico e a construção da produção já vão para um lugar que soa novo quando associado à sua carreira. O ponto forte aqui para mim é a quebra entre a suavidade do violino, que traz essa textura orquestral enquanto se choca de forma muito gostosa de ouvir com o ritmo definido pela guitarra e bateria.

Como primeiro material de um álbum que mudou tanto dos acordos que a artista mantinha com quem já a acompanha, Olivia fez uma ótima apresentação do que consegue trazer de diferente depois de três anos desde o seu último lançamento.


Young woman in a pink dress stands on a swing at night, with handwritten pink text on a dark background.
Tracklist oficial do álbum 'you seem pretty sad for a girl so in love' de Olívia Rodrigo.

Quando a tracklist do álbum foi revelada, ficou claro que o que nos estava sendo apresentado se tratava de um trabalho dividido em duas partes: o girl so in love, que contém sete faixas, e o you seem pretty sad, que conta com seis. Até o lançamento oficial do álbum, através de apresentações e até mesmo o lançamento de the cure como single, mesmo sendo a parte menor do álbum, Olivia nos contou muito mais do seu lado pretty sad do que do seu lado so in love. Apenas no dia do lançamento vemos outra faixa da primeira parte ser escolhida.


'stupid song' ganha o título de terceiro single da era e, apesar de ser uma belíssima carta de amor que me contagiou pela letra e pela quebra de progressão, o que mais me surpreendeu aqui foi a evolução vocal. A alteração na tonalidade e intenção de um verso para o outro, que muda e brinca ao ir contra as batidas da música, é surpreendente.


Woman leans against a store shelf in a grocery aisle while another woman stands by a drum kit; Nutrition Facts labels visible.
Olivia Rodrigo no clipe de 'stupid song'.

Eu tinha a teoria de que todo esse cuidado em não nos apresentar antecipadamente o lado mais feliz (se é que podemos chamar assim) do álbum era uma estratégia de mostrar o que nós, como público, já conhecíamos, que era o lado mais triste, e deixar o novo para o lançamento do material completo. 'honeybee' quebra um pouco essa minha teoria e se mostra uma música que segue um padrão que consigo identificar nos dois projetos anteriores. É uma composição com produção que soa mais simples (mesmo que na prática não seja) e isso não necessariamente a reduz em termos de qualidade, na verdade, valoriza a construção lírica que foi o diferencial aqui. É uma ótima faixa de amor que apesar de ir numa linha que já conversa mais com aquela sensação de não querer mais sair desse conforto emocional e brinca com o medo de perder alguém que você ama, se encaixa muito bem nessa posição do álbum em sonoridade e lírica, já que é muito característico de se estar so in love. No geral a faixa só não traz nenhuma grande novidade e tudo bem também, é bom para relembrar de onde estamos vindo.


Quase que de forma kármica, 'maggots for brains' é uma música bem diferente no álbum e que traz toda aquela ideia que eu tive para essa primeira parte do disco que 'honeybee' não cumpriu. Não ironicamente, foi a música que menos gostei e, nas vezes que fiz o relistening do álbum, a que eu queria que passasse logo. A letra é muito interessante e tem referências à 'Sex and the City' que é uma das minhas séries favoritas da vida, mesmo assim, não me prendeu a ponto de voltar à faixa e, abrindo um parêntese aqui, apesar da Olivia ter citado 'Paixão Simples', de Annie Ernaux, como inspiração para 'stupid song' especificamente, foi aqui que eu pude pegar algumas referências do livro. Funciona pro álbum mas não funcionou pra mim até o momento. Pode ser que em uma revisita futura isso mude pois sinto um dinâmismo na melodia que promete ser chiclete dependendo do nível de exposção à canção.


You plus me equals a heart forever, ou 'u + me = <3,' traz uma dinâmica lírica muito divertida e realmente me conquistou por isso, mas não é como se eu pudesse resistir à sonoridade que, de alguma forma, me trouxe um sentimento meio nostálgico e me deixou cantarolando esse verso mesmo enquanto escrevia outras partes dessa review. A construção da produção nessa música me conectou com 'Forever', da banda CHVRCHES, e 'Big Girls Don't Cry', da Fergie, de uma forma muito bonita e original.


Woman with a pink electric guitar in an ornate, candlelit room, bathed in warm red light, looking contemplative.
Olívia Rodrigo durante 'drop dead'. | Reprodução: Instagram (@oliviarodrigo)

Com tudo o que eu falei até aqui, você já sabe que atingi o ponto que eu esperava com 'my way'. Música insanamente perfeita que enfatiza que estamos falando de uma artista que se consolidou muito bem e tem uma identidade própria mesmo com tantas referências e inspirações, é o tipo de faixa que não te faz esquecer que isso que estamos ouvindo é Olivia Rodrigo. É pop rock, é feroz, é sentimental além do ponto de uma forma extremamente positiva e acima de tudo é completamente nova. É tão boa que honestamente não consigo discorrer sem entrar em um movimento cíclico e exploratório de encontrar palavras magníficas para expressar o que senti aqui. É a apoteose do álbum, pelo menos do lado girl so in love.


Em 'purple' nos deparamos com a faixa mais complexa de se digerir. A letra é envolvente e a forma como toda a narrativa é desenhada e desenvolvida me cativa bastante — a melodia e a produção vão para um caminho muito interessante que agrada e está bem alinhado com as expectativas, mas de alguma forma deixam um sentimento de desconexão, uma sensação meio isolada de percepção de uma e de outra. Como a própria Olivia disse, aqui é onde as coisas começam a desmoronar e a história passa a tomar outro rumo e isso me parece exatamente o que sinto ouvindo essa faixa, e isso torna a experiência poética e imersiva, mas honestamente não consigo entender com clareza o que se passa nessa conversa de sentimentos entre o que ela fala e o que é absorvido.


A sequência 'the cure', 'begged' e 'what's wrong with me' não é necessariamente uma novidade pois todas as três faixas foram apresentadas antes do lançamento do álbum e cada uma tomou um rumo diferente. Além disso, comercialmente falando, foram usadas em propostas e situações paralelas que afetam a percepção delas no final, como arte e como trabalho midiático.


Woman lies on a bed in a pastel room, wrapped in red cords, surrounded by blue trays, with a somber expression.
Olivia Rodrigo durante o clipe de 'the cure'.

Felizmente estou cada vez mais distante de me identificar com 'the cure', mas é engraçado porque acredito que essa seja uma das minhas faixas preferidas no álbum, se não a preferida. É difícil imaginar outra música que me geraria mais identificação quando uma tão boa assim existe — e quando eu falo boa, é incrivelmente boa mesmo, em todas as suas formas de apresentação. A cada performance ao vivo essa canção cresce mais e marca um avanço nas técnicas da Olivia que a tornam igualmente formidável de se ouvir, em estúdio ou ao vivo.


'begged'  vai em um caminho diferente e não funcionou para mim no ao vivo. É uma boa performance, mas eu a vi uma vez antes do álbum e não me chamou tanto a atenção quanto chama aqui. Saiu de uma faixa qualquer para uma que fico levemente ansioso de ouvir na sequência, porque sei que depois de uma experiência muito boa como the cure, vem uma igualmente boa. Gostei bastante da ideia de apresentar músicas inéditas ao vivo como divulgação sem necessariamente lançá-las como singles — infelizmente, o potencial de begged pode ter sido desperdiçado nessa estratégia. Quando funciona, a ideia de divulgação é inegavelmente muito boa; prova disso é 'what's wrong with me', que bebe desse mesmo copo mas aqui teve um resultado diferente.


Two people pose against a tan striped wall, older person in black beside a smiling young woman in stripes and a pink corsage.
Olivia Rodrigo e Robert Smith, do The Cure, em foto após apresentação no festival Primavera Sound, em Barcelona. | Reprodução: Instagram (@oliviarodrigo)

A primeira colaboração na carreira da Olivia Rodrigo já chega em níveis altíssimos, com um feat com ninguém mais ninguém menos que Robert Smith do The Cure. 'what's wrong with me' foi apresentada pela primeira vez durante a performance surpresa da Olivia no Primavera Sound, seis dias antes do lançamento oficial, e foi um presente que eu recebi muito bem. Honestamente, fiquei ouvindo a performance até o último instante antes do álbum e, quando tive a oportunidade de ouvi-lo pela primeira vez, me segurei bastante para não ir direto à faixa e descobrir como era a versão de estúdio — que é boa, mas não tão surpreendente quanto a performance. A versão de estúdio me soou um pouco mais empobrecida em instrumentos e com um aspecto que eu chamei de slow motion sonoro. É muito boa, mas vou precisar me acostumar e também quero uma versão oficial da performance do Primavera Sound.


Na reta final do you seem pretty sad, 'less' entrega uma letra que conversa exatamente com a divisão que o projeto se compromete a fazer. É melancólico, marca um aprofundamento narrativo que te imerge nos sentimentos que cada nota no piano toca. Novamente, assim como 'honeybee', não se destaca como algo tão inovador ou inédito, mas isso já não era algo que eu esperava desse lado do álbum, e mesmo assim a faixa traz um certo amadurecimento e funciona muito bem nesse momento. A não identificação causa um afastamento devido à toda particularidade lírica, confesso, mas ainda assim consegui apreciar muito bem essa composição que definitivamente tem como ponto forte justamente isso, a lírica.


Prestes a finalizar seu terceiro trabalho de estúdio, Olivia novamente entrega uma ótima surpresa que expande horizontes e conversa muito com a surpreendente 'my way'. 'expectations' vai contra a maré e entrega uma batida animada com uma letra que brinca com o que esperar de um próximo relacionamento, do checklist a se montar e dos erros que você não quer repetir da próxima vez. A inserção dessa faixa no final do álbum foi muito divertida e condizente com a narrativa que foi proposta, mas a faixa seguinte quebra completamente isso e trás um regresso lógico que, na verdade, é muito humano e emocional. Isso foi a coisa mais genial para essa etapa do álbum: quebra muito o que se espera e acaba tirando da monotonia.


Para fechar o álbum, Olivia nos entrega 'cigarette smoke', uma faixa bem carregada de tristeza ao ser interpretada com um tom de desesperança e uma produção focada no violão, se contrapondo completamente com a antecessora 'expectations' e te retornando a um lugar de quem ainda não está tão pronto assim para seguir em frente. A letra traz de volta o "nome" honeybee de uma nova perspectiva que te faz desmoronar. É sobre aquela sensação de tentar tanto seguir em frente e mesmo assim seu máximo não ser o suficiente, ao ponto que você simplesmente desaba em um ciclo de melancolia, cansaço e memórias que perdem a cor e viram apenas pesadelos como se você fosse uma criança perdida sem seus pais, tudo isso enquanto você sente uma saudade profunda de algo que muito provavelmente não volta mais, assim como o álbum que aqui chega ao fim. Excelente encerramento narrativo.


Woman in a light blue dress stands on a tree stump at night, with a dark landscape and moody purple sky behind her.
Olivia Rodrigo em material de divulgação para o álbum 'you seem pretty sad for a girl so in love'. | Reprodução: Instagram (@oliviarodrigo)

Com aproximadamente 5 anos de carreira, Olivia Rodrigo definitivamente caminha para uma consagração como artista de nível admirável. Com 'you seem pretty sad for a girl so in love', Olívia narra perfeitamente o sentimento de se apaixonar, amar, crescer e deixar ir. É uma construção narrativa feita de forma impecável, tanto em lírica quanto em sonoridade. Tudo conversa muito bem e mesmo com algumas possibilidades não aproveitas aqui ainda, seu terceiro trabalho de estúdio se segura muito bem em referências da cultura pop, identifição narrativa e uma produção admirável pelo Daniel Nigro. O álbum não apenas desafia todo o ecossistema que Olivia Rodrigo havia criado até aqui, ele se reinventa mantendo uma assinatura que já é tão forte que a coloca à beira de ser consagrada como uma das maiores artistas de sua geração.


(4.5/5)

Woman sitting alone in empty wooden theater seats, gazing upward thoughtfully.
Zendaya as Rue Bennett in 'Euphoria' (2019 - 2026)

Euphoria Season Review English Version coming by Thursday


Desde que entrei de cabeça no mundo das séries, sempre fui aquela pessoa que ia na recomendação de alguém, e daí se formava um grupo de pessoas que acompanhavam aquele programa de TV e surgiam as discussões. Lá atrás, ainda em 2019, eu fiz a escolha de assistir sozinho, sem receber nenhuma recomendação ou ler nada a respeito, a série cujo comercial ficava passando na minha TV enquanto eu lidava com o final terrível de Game of Thrones.


Eu dei essa chance e fui surpreendido com a série mais interessante e divertida que eu tinha assistido até então. Além dos tons de roxo que me chamavam a atenção, a direção da série foi um diferencial fenomenal para mim que, naquele momento, estava começando a ser um entusiasta de cinema em sua forma mais técnica. O roteiro abordava de forma escrachada temas com os quais eu conseguia me identificar estando no ensino médio — como relacionamentos, internet, "primeira vez", pluralidade de narrativas, especialmente no meio LGBTQIA+ com a Jules (Hunter Schafer), cuja vivência não era a minha realidade, mas que eu pude entender e me aprofundar —, e, infelizmente, o abuso de drogas.


No Brasil, durante a transição do ensino fundamental para o ensino médio, a conscientização sobre o uso de drogas é intensificada — e isso acontece porque, não importa o quanto tentemos fechar os olhos, não é segredo para ninguém que a vida adulta pode sim te colocar em contato com tais substâncias. Eu, por outro lado, gostava de saber que estava consumindo algo que falava sobre tópicos que antes eu via apenas na TV, mas que de uma forma ou outra estavam começando a fazer parte da minha vida. Sentia que estava abraçando uma empatia por outras realidades que não a minha, e isso, em Euphoria, era feito de forma magnífica com maquiagens cheias de glitter que, apesar de toda a sua beleza, não romantizavam a narrativa caótica e problemática da sua protagonista Rue Bennett (Zendaya).


Curly-haired woman sits in a dusty SUV, looking out the open window against a clear blue sky, serious and focused.
Zendaya as Rue Bennet in 'Euphoria' (2019 - 2026)

A terceira temporada de Euphoria começa com uma sátira à essência do que é acompanhar a trajetória da Rue: estamos em um lugar completamente sem cabimento, numa situação que sabe lá Deus como ela foi parar. É engraçado, mas trágico. Nesse primeiro episódio, acompanhamos o que aconteceu com a Rue nos últimos anos e como as escolhas dela na segunda temporada — enquanto ela ainda estava no ensino médio — definiram a situação em que ela se encontra agora, na vida adulta.


Honestamente, gostei do episódio e da forma como ele foi construído. Consegui me divertir, teorizar novos rumos e me apegar à história que estava sendo apresentada ali — assim como todo início de temporada deve ser. Mas o que senti aqui foi que não estávamos começando uma nova temporada de uma série que eu já acompanhava, e sim uma série nova com um universo compartilhado com algo que eu já conhecia.


Direção de imagem, maquiagem, figurino e roteiro trabalham em conjunto para construir a identidade de um projeto audiovisual, e eu gosto muito de quando isso é revisitado e repensado de uma nova forma que faça sentido para o desenvolvimento de uma trama — o que aconteceu aqui em certo nível. Mudar as cores principais da série e o cenário em que ela é ambientada — e cabe reforçar aqui que não estou falando exatamente de um espaço físico — foi um acerto muito interessante, a meu ver. Apesar do apego nostálgico e de certa forma até carinhoso com o roxo, o glitter e as maquiagens das duas primeiras temporadas, devo reconhecer que essa repaginada visual foi positiva, o que não quer dizer que não houve erros também.


Man in white outfit sits on a wooden chair with a tan coat over his shoulder against a brown textured backdrop, calmly posing.
Labrinth for Sony Music

A saída do Labrinth da trilha sonora não passa despercebida, e isso é, de longe, o maior erro da série. No episódio do casamento, temos um conflito de interesses muito forte a ser discutido, e a simples presença de um elemento carrega todo esse drama e a ansiedade pelo desfecho. Acontece que a trilha sonora mata, sem dó nem piedade, o que não só poderia como deveria ser o ponto alto do episódio. Não estou aqui falando de gostos e expectativas que não foram atendidas, mas sim de uma narrativa construída em torno da traição de uma amizade que define onde estamos agora — e, ao invés de termos um momento apoteótico de tensão, a trilha sonora segue o caminho completamente oposto, e repentinamente você nem lembra mais o que está assistindo.


Quando você muda tantos aspectos que caracterizam seu projeto, é importante manter pelo menos uma coisa além do elenco para indicar ao público que ainda estamos contando a mesma história — que o que você começou a contar lá em 2019 ainda não teve um desfecho. Além de um roteiro que é sim mais ousado no que diz respeito a pontos e ganchos conectivos, temos também uma audiência afetada pelo roteiro mastigado que a indústria vem entregando e que os algoritmos de redes sociais ajudam a promover. Não é mais sobre fazer o público se sentir conectado à sua história, é sobre fazê-lo se desconectar para prestar atenção no que você tem a dizer em tempo recorde. Isso é triste — uma lástima que pode sim limitar alguns roteiros e projetos incríveis, mas que definitivamente não é o caso aqui.


Collage of Euphoria characters in neon scenes with HBO Max branding, title, and Season 3 April 2026 promo text.
'Euphoria' from Season 1 to Season 3 comparison (Reproduced: Reddit - Click to access original content)

Apesar de um roteiro cativante em si, há uma certa fraqueza em manter a narrativa viva para o episódio seguinte — em criar uma linearidade que te faça abraçar a história com uma expectativa de onde se quer chegar, e não apenas algo que você religiosamente senta no sofá todo domingo para assistir. As cenas do casamento da Cassie (Sydney Sweeney) com o Nate (Jacob Elordi) dizem muito sobre isso. São acontecimentos do passado que não afetam um personagem com a presença do outro da maneira que deveriam — e, novamente, não é sobre uma expectativa minha, mas sim sobre o que o roteiro nos contou desses personagens. São nomes que a gente já conhece e sabe o que esperar, mas que aqui estão completamente descaracterizados.


Lidar com a frustração de ver um personagem que você conhece fazer coisas que o roteiro te ensinou que ele nunca faria é um desafio e tanto, e se você tem um apego maior com esse personagem, a situação é pior ainda. Desconsiderando o completo apagamento da Kat (Barbie Ferreira), a redução brusca do tempo de tela da Jules foi algo que me doeu muito. Além do apreço pela personagem, parte do desenvolvimento da protagonista estava ali, e ver isso reduzido a praticamente nada contribuiu muito para o senso de desconexão com a narrativa apresentada até aqui. Outro ponto que me chama a atenção de forma negativa nesse trecho da temporada é a sexualização em cena, especialmente da Cassie e da Kitty (Anna Van Patten), que protagonizou uma das cenas mais perturbadoras e desconfortáveis que já vi — tudo isso simplesmente por ser desnecessária.


Giant woman in leopard-print dress stands over a ruined city at dusk, with lit skyscrapers and ONE WILSHIRE visible in back.
Sydney Sweeney as Cassie Howard in 'Euphoria' (2019 - 2026)

Eu não me importo nem sou cético conservador quando se trata de cenas de sexo e nudez explícita, desde que haja um propósito e um acréscimo considerável à trama que está sendo desenvolvida. Nessa cena em específico, acredito que havia formas de construir o mesmo desconforto sem gerar um estímulo visual apelativo que me pareceu estar ali apenas para chocar e gritar com a audiência algo como: "Ei, olha o que estou falando".


Abraço a importância de se discutir a prostituição e o abuso sofrido por profissionais do sexo sem tabus ou rodeios que possam acabar na romantização — mas é ligeiramente intrigante como isso se desenvolve aqui, ainda mais estando associado ao nome de Sam Levinson e ao seu passado não tão distante com The Idol.


É uma cena carregada de fetiche? Sim. É desconfortável a ponto de ser cômica? Com toda a certeza — mas se em alguma coisa esse roteiro acertou ao brincar com nudez explícita, foi na abertura do quinto episódio. Além de resgatar o passado com técnicas narrativas da primeira temporada, o paralelo entre o que estávamos vendo e o que estava acontecendo na "realidade" do universo da série, a sequência de cenas que leva à Cassie Gigante é repleta de alegorias que brincam e ironizam o que a personagem está vivendo e o caminho que está escolhendo trilhar, além de satirizar fetiches que, apesar de bizarros, submetem a personagem a realizá-los por um bem maior que a engrandece enquanto minimiza quem os solicita. Isso tudo é feito com referências clássicas que, mesmo para quem não as captou de primeira, ficam evidentes e sinalizam uma evolução do que já havíamos visto até aqui em termos técnicos e de roteiro. Infelizmente, o desenrolar do episódio não segue o mesmo caminho, e voltamos à dificuldade em manter a narrativa viva para o próximo — desta vez com um detalhe a mais: já era o terceiro capítulo seguindo a mesma estrutura de acontecimentos de forma padronizada, apenas alterando os fatores e envolvidos.


Man in teal pajamas lies on a patterned bed, clutching a belt, looking pensive in a warm wood-paneled bedroom.
Ca'Ron Jaden Coleman as Young Álamo in 'Euphoria' (2019 - 2026)

Nessa altura do campeonato, eu estava lidando com a temporada como uma série à parte, até que fui surpreendido com um dos melhores episódios — não só da temporada, mas talvez da série —, o que me fez questionar por que havíamos perdido tanto tempo e potencial nos momentos anteriores.


O resgate do background dos personagens veio como um presente fora de época para uma audiência que eu acompanhei reclamar de descolamento do universo da série de 2019. Aqui senti, pela primeira vez em um episódio inteiro, que estava assistindo Euphoria. Aqui consegui abraçar todas as alterações, mudanças e possíveis evoluções de uma série que agora estava tendo uma continuação.


Entender o passado do Alamo (Adewale Akinnuoye-Agbaje) e do Ali (Colman Domingo) era um indicativo muito forte de que algo grande viria por aí — e que estaria nitidamente ligado ao final dessa temporada que, até aquele momento, não se sabia se teria uma continuação ou se estávamos diante do encerramento completo desse universo.


Desde a desconfiança do Alamo com medo de ser traído por mulheres após presenciar a traição da sua mãe na infância, até a tradição fúnebre do Ali de anotar o nome das pessoas que perdera ao longo da vida em um caderno, tudo nessa parte da temporada soava como algo novo e empolgante. Aqui a história caminhava para algum lugar, e dava para sentir isso — aquela sede de ver o próximo capítulo e entender um próximo passo que, finalmente, era possível especular. Depois de episódios girando em círculos, a temporada começou a ganhar forma com uma série de acontecimentos cativantes, muito bem abordados e construídos, que me fizeram levantar do sofá assistindo às cenas.


A man in a black cap writes at a desk in a dim, warm-lit room with framed photos, a lamp, and patterned curtains.
Colman Domingo as Ali in 'Euphoria' (2019 - 2026)

A série de acontecimentos que leva Nate a estar soterrado vivo em um caixão dentro da sua própria construção foi bem executada, sem repetir o plot quase padrão da temporada até aqui — a perseguição de gato e rato cuja consequência é sempre um dedo a menos. Nesse ponto, você abraçava a ideia do que precisava ser feito e torcia para as personagens chegarem lá, porque conseguia visualizar onde era esse lugar, qual ponto narrativo isso ia atingir e como estava sendo construído. Não há o que reclamar nesse desenvolvimento — apenas apreciar e abraçar como um bom, mas não excelente, material que tem como único ponto negativo não trazer consigo a carga característica das duas temporadas anteriores.


Sim, achei a morte de Nate Jacobs hilária e improvável, mas foi exatamente o tipo de desfecho que eu sequer poderia imaginar — e que cumpre muito bem com o que Euphoria se comprometia a fazer lá no começo. É uma morte coerente, levemente temperada com comicidade, e um belo gancho para o que esperar a seguir.


Black-and-white photo of a smiling man lying on pavement beside a cooler and fishing rods, with other people standing nearby.
Jacob Elordi as Nate Jacobs in set for Episode 7 (Reproduced: Instagram/@Euphoria)

Até o final da exibição do episódio ainda era uma grande incógnita se estávamos presenciando o final de uma temporada ou da série, mas aqui continuamos exatamente de onde paramos no anterior e já somos surpreendidos com uma perseguição eufórica que criou um ânimo impecável para seguir em frente. Apesar de não saber como lidar com esse episódio nos quesitos citados acima, foi um capítulo muito bem direcionado às suas conclusões — e não conclusões. Tínhamos o desfecho do arco desenvolvido desde o terceiro episódio, o da Rue ajudando a polícia; o fim da Faye (Chloe Cherry) e do Wayne (Toby Wallace), que fica formidavelmente em aberto na medida certa; e até um pouco de conforto para nossa protagonista, que foi arrastada viva laçada pelos pés. Tudo muito calmo — mas ainda não havia passado nem metade do episódio, e a partir daí começamos a presenciar as consequências dos pequenos atos e falas de canto de boca.


A morte da Rue era óbvia — não desde a primeira temporada que, complementada pelos episódios especiais e pela segunda, deu um rastro de esperança para a personagem, mas sim desde o episódio que conta o passado de Ali, que deixou claro que cedo ou mais tarde ele colocaria o nome dela ali. Não acho que uma boa narrativa seja construída ocultando seus próximos passos, focada em surpreender sua audiência, mas sim os construindo de forma majestosa — e inegavelmente isso foi feito aqui. O episódio final entrega uma série de expectativas quebradas sobre como a personagem chegaria a esse fim, seja escapando de ter a cabeça arrancada por um taco de polo ou conseguindo sair de dentro da toca do inimigo. Com um gancho extremamente coeso e fechado de forma segura e ambiciosa no meio do episódio, Zendaya se despede de Rue com a personagem sendo enganada e induzida a uma overdose de fentanil por Alamo, que não deixou a conversa fiada de Maddy (Alexa Demie) passar despercebida.


Young woman in a retro bedroom hugs a loaf of bread on a bed, with green wallpaper and a large window behind her, looking pensive
Zendaya as Rue back in her high-school room for Episode 8

Em uma das cenas mais lindas da série — o que é difícil eleger porque não se pode negar a beleza na direção de Euphoria — vemos Rue correr até sua antiga casa para ajudar Fez (Angus Cloud) depois que ele teria fugido da cadeia, colocando em prática o plano que ele lhe contara no começo da temporada. A partir desse objetivo da personagem, uma sequência de cenas a leva até sua mãe, Leslie (Nika King) — e aqui eu admito que foi quando a ficha começou a cair, o coração a apertar e os olhos a encherem de lágrimas. Complementada com flashbacks de vários rostos importantes para a personagem — como o próprio Fez, sua mãe, seu pai e até mesmo a Jules —, a morte de Rue também é marcada por uma cena resgatada dos bastidores da gravação da primeira temporada, onde ela aparece ao lado de Angus — e aqui vou usar o nome do ator porque foi claramente uma homenagem a ele, que infelizmente veio a falecer em 2023.


Entre muitos erros e alguns acertos, essa terceira temporada teve sim um saldo positivo — justamente por segurar bem a carga dramática que se propunha a levantar. A decisão de encerrar a história da protagonista no meio do episódio gera um silêncio desconfortante para um público que já estava acostumado a ouvir a narração imprecisa e de baixa confiabilidade de uma personagem que aos poucos alimentava nossa esperança de salvação para si. Agora, concluindo essa review e tendo ciência de que estávamos presenciando o fim da série e não de uma temporada — o que já era óbvio, mas precisamos de certezas para firmar algumas posições —, temos um chão firme para pisar.


Confesso que, em um primeiro momento, senti que a insensibilidade de não dar uma cena de funeral para a Rue me incomodou — mas após alguns momentos digerindo o episódio, cheguei à conclusão de que era o que cabia. O vazio de não entender o luto dos personagens que orbitavam a protagonista é, inegavelmente, a arte em seu estado mais puro. Todo o remorso que a Lexi (Maude Apatow) carrega em suas indagações, o silêncio absoluto na tristeza da Jules e a memória do seu sorriso bonito pela Cassie nos atingem de forma magistral — porque, de certa forma, estamos com os mesmos pensamentos que esses personagens, sentindo a mesma perda e o mesmo desamparo.


Smiling young man and woman outdoors, wind in her hair, wearing blue lanyards with SUPREME text.
Zendaya and Angus Cloud back in 2019

Nos momentos que sucedem a ligeira passagem pelo luto, vemos Ali vingar a morte de Rue em um confronto arrepiante com Alamo, que definitivamente estabelece o que essa temporada veio fazer na série: brincar com a ideia do sonho americano a partir da metáfora mais crucial de todas sobre o "estamos a caminho de chegar lá" — o neo-western.


Euphoria se encerra após 7 anos de produção nos deixando com um resíduo amargo na boca — a tristeza de acompanhar de perto a vida de uma pessoa que enfrenta problemas com abuso de drogas. Com o peso de escrever uma história que infelizmente foi espelhada na vida real com o falecimento por overdose de um de seus atores, Sam Levinson surpreende ao construir uma narrativa que, apesar de turbulenta e com vários desníveis de linearidade, faz jus a uma realidade triste, sofrida e que atormenta quem a vive de perto. Mesmo com episódios desconexos e repetitivos que assustam o telespectador com a possibilidade de um esvaziamento criativo por parte do roteirista, quando Sam senta na cadeira e decide que quer fazer algo bem feito, ele consegue e surpreende — levantando uma temporada de episódios medianos com um final revigorante. Em meio a inúmeros 7, a temporada consegue se estabilizar em um bom 8 (3.5/5).



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